Em uma tarde um senhor, sem querer, me fez compreender como eu me sentia e o po que de minha tristeza.
No canteiro central de uma avenida arborizada um idoso estava sentado em uma cadeira de madeira com acento de palha. Admirava a paisagem. Admirava os que por ali passavam.
Talvez recordasse que ele próprio dirigiu apressado por esta mesma avenida, xingando os adolescentes que, sem pressa, atravessavam a faixa de pedestres em direção ao colégio.
Quem sabe invejasse os jovens.
Fiquei imaginando se aquele idoso fora sempre assim, contemplativo.
Será que durante sua juventude ele arriscou, viveu, ou somente contemplou a vida esperando ela passar?
Talvez não imaginasse que de tanto assistir ao espetáculo da vida,
Deus o fizesse em sua velhice igualmente contemplativo.Será que sou uma atriz do espetáculo da vida ou mais uma, dentre tantos, a assisti-la da platéia? Será que serei eu condenada a contemplar os outros até, irremediavelmente, dar-me conta do tempo que perdi, da vida que não vivi, da minha inércia frente o mundo?
Não amei demais.
Não dancei demais.
Não corri demais.
Não beijei demais.
(Pausa)
(Silêncio)
Uma carroça puxada por dois cavalos magros passa na rua. Observo da minha janela que é guiada por uma senhora de idade avançada. Ao seu lado, uma jovem grávida segurava uma criança, para a qual dispendia cuidados maternos.
A criança olhava admirada cada árvore, cada prédio, cada rosto com um olhar de descoberta, desbravando o mundo. O olhar da criança deve ter cruzado co o olhar do idoso.
Feliz dessa criança que não tem noção do mundo onde vive e que, a
julgar pela sua mãe, nunca irá ter. O idoso poderá pensar assim.Quanto mais se conhece o que não se pode ter, mais cresce a vontade de o possuir.
Quanto mais se estuda, mais límpida é a noção da própria ignorância.
segunda-feira, novembro 21, 2005
Faz tempo que escrevi este texto (ensaio, crônica,... - não sei), mas só hoje eu gostei dele a ponto de publicá-lo aqui.
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