sábado, junho 09, 2007

“Depois de uma certa idade, que me importa ser chamada de inteligente? Eu quero é ser gostosa!" (Marília Gabriela)

Crônica de Martha Medeiros: Mulher feia.

NÃO SOU DE GARGALHAR ALTO enquanto leio um livro, mesmo que esteja achando a maior graça. Sorrio por dentro. Uma das raras vezes em que me peguei rindo ruidosamente foi quando li “A mulher que escreveu a Bíblia”, de Moacyr Scliar. A narradora é uma mulher que se olha pela primeira vez num espelho aos 18 anos e descobre que é feia. Feia não: medonha, asquerosa, repugnante. Mas boa de corpo e inteligentíssima, e é deste cérebro privilegiado criado por Scliar que sairão as tiradas impagáveis deste romance lançado em 1999.
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Pois agora é a vez de Claudia Tajes lançar “A vida sexual da mulher feia”, um livro protagonizado por uma mulher de rosto inclassificável e com o agravante de ter um corpo repulsivo. Jucianara — que não é boba e atende por Ju — nos conta sobre sua infância, adolescência e a dificuldade de arranjar namorado por causa dos atributos estéticos que lhe foram negados. É isso o livro, sem maiores pretensões, mas pelo menos em duas ocasiões, durante a leitura, eu tive que enxugar as lágrimas. Literalmente, chorei de rir.
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O Brasil é um país de mulheres bonitas. Podem não ser umas deusas, mas cada mulher tem algum atrativo: boas pernas, um olhar penetrante, um sorriso sedutor — alguma coisa ela tem que agrada. Mas adianta ter alguma coisa? Pouco. A pressão para ser linda é tanta que a gente acaba desvalorizando nossos autênticos atributos. Algumas chegam ao exagero de comprar na clínica da esquina o que lhes falta: peitos, boca, cabelo. Por quê? Porque elas se cobram desumanamente. Comparam-se com o que vêem nas revistas e se acham feias. Ou são traumatizadas por terem sido feias um dia. Quem já não foi gordinha, quem já não foi desengonçada, quem já não se sentiu o ó do borogodó numa festa, quem? É comum top models revelarem que, na época da escola, eram chamadas de tábua, magrela, estrupício. A feiúra ronda a todas, ao menos em alguma etapa da vida.
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A excepcional Adélia Prado certa vez escreveu num poema: “Ser bonita e jovem — um dos desejos mais fundos da minha alma”. Marilia Gabriela já disse algo como: “Depois de uma certa idade, que me importa ser chamada de inteligente? Eu quero é ser gostosa!”. Ah, só uma mulher — inteligente, claro — pra entender que Gabi tem toda a razão.
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Por tudo isso, ler sobre as desventuras das feias produz em todas as mulheres um secreto regozijo. Porque, mesmo quem é bela, acaba se reconhecendo em alguma neura ou frustração das que nasceram com um rosto, digamos assim, estranho. Não há quem já não tenha sido preterida por outra mais exuberante, ou mais jovem, mais magra, mais loira. Sim, Vinicius, beleza é fundamental, nós que o digamos. Óbvio que não deixamos de valorizar o que realmente interessa: massa cinzenta, caráter e honestidade, mas estou para encontrar uma mulher que não dê a mínima para sua aparência. O bom é que a gente consegue se divertir com o assunto, já que sofrer por causa disso, nem pensar: além de inútil, nos deixa com o aspecto abatido e cheias de olheiras. Era só o que faltava.

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